• Jéssica Alvarenga

Aceitando as diferenças através do tingimento natural


Já parou para perceber que quando você compra uma peça de roupa e identifica uma alteração na cor, uma espécie de mancha, automaticamente você considera isso um defeito? Esse pensamento está enraizado na cultura que foi naturalmente imposta pelo mercado ao produzir sempre peças padronizadas conforme a tendência do momento.

Na Brisa, tentamos desconstruir esse raciocínio. Aqui, seguimos o processo manual e artesanal do tingimento natural, uma atividade de conexão íntima com a natureza, de aprendizado constante e de arteterapia. Ele difere claramente do tingimento químico e industrial em diversos fatores como escala, tempo, custo, mão de obra e valores. Os produtos que surgem a partir do tingimento natural serão sempre únicos, não importa o quão uniforme fique o tingimento, cada peça se torna singular e especial. Nisto, também vemos grande diferença em relação às roupas coloridas quimicamente, pois o processo industrial visa a maximização através da padronização e uniformização dos produtos, ditando assim um padrão estético aos consumidores.

Quando falamos de processos artesanais, principalmente humanos, nós automaticamente percebemos outros valores - aqueles que surgem ao contar a história de como uma peça de roupa foi feita. Aceitar as manchas como parte intrínseca desse processo é aceitá-lo por si só. Por isso, na Brisa nós adoramos as manchas, elas nos contam uma história sobre aquele tingimento, além de mostrar o quão original cada peça é.

As manchas podem, por vezes, formar uma espécie de textura através das padronagens de coloração que elas apresentam (como o macacão Estela da foto!). Para entender o surgimento dessas manchas, precisamos entender melhor o processo de tingimento natural. São muitas as variáveis que influenciam e impactam diretamente o tingimento: o pH da água, o tempo da extração do corante, a forma como este foi extraído, que tipo de corante estamos tratando (cada insumo possui particularidades inatas de sua natureza), bem como a quantidade de mordente (fixador de coloração) utilizado, qual a origem e eficiência desse fixador, a temperatura da água e também o fator mecânico (mexer o banho da coloração). São muitas variáveis, né? Fica fácil de entender quando comparamos com uma receita de bolo. Provavelmente cada uma de nós possui uma receita diferente para um bolo simples de banana. São vários itens nessa receita e qualquer que seja a variação na quantidade ou presença/ausência de cada um, com certeza tornará diferente o resultado final.

Nem sempre alterações nas proporções e itens estragam o bolo, apenas precisamos entender o funcionamento da receita para obter o resultado desejado. O raciocínio por trás do tingimento natural é parecido: as manchas são resultado de variáveis intrínsecas ao processo, portanto, elas são parte desse lindo e primoroso trabalho artesanal.

À medida que vivemos essas experiências, colorir roupas em harmonia com nosso corpo e a natureza se tornou um valor substancial dentro da Brisa. De quebra, obtemos diferentes resultados de tingimento e todos igualmente interessantes! Aqui, cada peça é uma peça, mas todas carregam histórias, respeito e boas energias com insumos naturais e mão de obra valorizada.

No dia-a-dia do nosso ateliê aprendemos a aceitar e adorar as diferenças como consequência dos nossos trabalhos manuais. Acreditamos que estes são carregados de resistência! O trabalho manual resiste à massificação e uniformização imposta pela indústria. Tudo que é feito manualmente leva um tempo próprio e que não deve ser medido através dos parâmetros estéticos impostos ao longo dos anos pelo mercado. Infelizmente, é essa padronização forçada que dita o que é belo: limpo, liso, sem manchas e defeitos. A sociedade sempre tenta justificar o belo através do que vemos nas vitrines, nas lojas, na televisão e na internet, mas a verdade é que esse entendimento é subjetivo e pessoal, parte da perspectiva de cada pessoa. Respeitar e entender nosso próprio desejo sobre o que é belo é acreditar na diversidade de forma genuína.


Na Brisa, nossa perspectiva de belo é aceitar que somos diferentes. Afinal, a natureza é composta por diferenças! Somos todos da mesma espécie, mas cada um de nós possui um DNA próprio, bem como cada indivíduo dentro de cada espécie nesse planeta. Permita-se estar presente para perceber todas essas singularidades: nossas digitais, a padronagem dos pelos dos nossos pets, a presença de nervuras em uma folha... Nada é igual.

Assim, questionar é sempre nosso ponto de partida. Precisamos contestar os padrões que nos são impostos, tomando uma escolha consciente sobre o que faz sentido para cada uma de nós. O tingimento natural nos trouxe todos esses e muitos outros ensinamentos - aprendizados técnicos dentro de um caminho de autoconhecimento. Na Brisa, as manchas são singularidades especiais, carregadas de sentimentos e fruto de um processo manual de respeito ao meio ambiente e à diversidade.

S O B R E A A U T O R A

Jéssica Alvarenga

Bióloga, estudante de design de moda, estagiária na Brisa, apaixonada por trabalhos manuais e artesanais, entusiasta de sustentabilidade e ativista por um futuro mais consciente.

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